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Sócrates, um livre sonhador

Em 2008, quando chefiava o Jornalismo da TV Cultura, fui o responsável pela contratação de Sócrates para o Cartão Verde. O programa estava sendo renovado e buscava-se uma nova composição da bancada. Xico Sá, típico torcedor fanático, e Vitor Birner, exemplar estatístico racional, já haviam sido contratados. Faltava um craque. Rivelino não quis, achou o salário pequeno. Raí declinou com diplomacia. Foi então que eu sugeri a Vladir Lemos, apresentador do programa, o nome de Sócrates.

Nós fizemos o convite a ele durante um almoço num restaurante dos Jardins. Entusiasmado com a idéia, ele topou na hora, pedindo apenas que a TV custeasse também suas viagens de Ribeirão Preto para São Paulo.

Não me tornei propriamente um íntimo, mas foi muito bom conviver com Sócrates desde então, não só porque eu e minha família toda – corintianos roxos – éramos seus fãs. Magrão era comunicativo, humilde, sonhador e solidário.

Duas ou três vezes, após o programa, saímos ele, Vladir, Xico, Vitor e eu para comer e tomar alguma coisa na Vila Madalena ou na praça Villaboim. Não dá para negar que ele era quem mais bebia. Em nenhum momento, contudo, Sócrates dava idéia de estar bêbado, essas coisas de ficar tonto, falar bobagens, olhar diferente.

Ao lado de Xico Sá, um gozador de primeira, ele garantia a alegria da mesa, com tiradas bem humoradas. Gostava de repetir que a Cultura tinha contratado o irmão errado: “Raí é bonito e chuta de frente, eu só sei chutar de calcanhar”. Mas não havia nenhuma arrogância nisso. Ele era exatamente o que imaginamos que ele era. Menino crescido com a camisa do Santos, o time da moda na época, tornou-se um corintiano apaixonado, mas não acrítico. Inclusive em relação ao Timão.

Tinha muitos projetos pela frente. Um deles, recuperar todas as imagens de sua carreira para fazer um documentário. Mais recentemente pensava num programa de TV de entrevistas dedicado à Copa de 2014, inclusive com visitas periódicas às cidades sedes.

Num período em que a TV esteve mal das pernas e precisou fazer uns cortes, ele quase foi desligado. Ofereceu-se para ficar ganhando por mês o que ganhava apenas por uma semana. E convenceu os demais companheiros a fazerem o mesmo, pois sempre foi um líder nato.

Mas se eu tiver que definir Sócrates com uma só palavra, eu diria que ele era um homem livre. Como já demonstrara na época da Democracia Corintiana, na luta pelas Diretas-Já e na Seleção, ele não tinha problema algum em falar exatamente o que pensava, quebrar rotinas e  mudar comportamentos tradicionais. Na TV, não teve quem o convencesse a não usar no ar aquela bandana que resolvera adotar desde o ano passado.

Na última vez que nos vimos, ele autografou duas camisas 8 do Corinthians para meus filhos Guille e Fábio. Eram desses tipos retrô, ele gostou de pegar de novo uma camisa de algodão grosso. Terça-feira passada pensei em ir ao estúdio do Cartão Verde para dar-lhe um abraço.Não fui. Fiquei sem me despedir dele e, confesso, isso me deixou com um certo remorso. Deixo aqui o meu adeus.

  1. Rafael Fachim
    dezembro 5, 2011 às 12:05 am | #1

    Grande Júlio… Me sinto orgulhoso, muito orgulhoso, de ter participado dessa família! Abraço.

  2. Paulo Neves
    dezembro 5, 2011 às 7:48 pm | #2

    Julio, gostei muito de seu comentário,

  3. Lidiane Merckel
    dezembro 5, 2011 às 9:15 pm | #3

    Sr. Julio Moreno gostei muito da publicação, achei muito sincera e muito bonita suas palavras, parabéns!!! Acho que todo brasileiro se entristece um pouco com essa perda, porque Sócrates era bem brasileiro no seu jeito de ser!

  4. Lenita Costa Flores
    dezembro 6, 2011 às 4:30 pm | #4

    Sempre que leio suas crônicas,fico feliz por elas serem fabulosas.Essa do Sócrates está muito linda (mamãe ficou emocionada)!Mas veio uma decepção…de fato,ninguém é perfeito,inclusive você, por ser corintiano!!!Que pena!Beijos da Lenita Flores(palmeirense)

  5. Lenita Costa Flores
    dezembro 6, 2011 às 9:20 pm | #5

    Puxa vida Julinho.Agora tive realmente certeza de que ninguém é perfeito,incluindo você.Adoro tudo o que você escreve,mas você ser corintiano…ah!isso me decepcionou…
    Fazer o quê,né?Apesar do seu gosto por esse time de futebol,muito lindo o que você escreveu sobre o Sócrates.Pena que ele foi embora tão cedo!!
    Beijos
    Lenita Flores(palmeirense)

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