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Arquivo para a categoria ‘Bens culturais’

O patrimônio não é só histórico, é também estratégico

Vale a pena ficar de olho na revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo cujo debate recém começou.

Tenho particular esperança de que haverá maior participação popular desta vez, ao contrário da revisão de 2007, uma das causas que levou o desatualizado plano de 2002 a permanecer em vigência até hoje, do que resultaram abusos do setor imobiliário, o agravamento da mobilidade urbana e poucas ações sustentáveis.

Uma das dimensões da sustentabilidade é a cultural. A cidade não é só onde moramos, trabalhamos e estudamos. Não é só um amontoado de gente. A cidade é essencialmente um organismo social em mutação constante. Cada qual com um DNA único. Essa identidade é dada pela cultura local. Ela precisa ser forte, para não deixar que as mutações dilacerem a cidade. Para ser forte, a cultura local precisa unir, não segregar. Vale dizer, respeitar a diversidade de todas as raízes da comunidade.

A preservação dos bens culturais faz parte desse contexto. São edificações, paisagens, bens móveis e sítios arqueológicos que guardam nossa memória coletiva. Sem eles, sofreríamos de uma “labirintite urbana”, digamos assim. Não conseguiríamos nos equilibrar, andariamos pelas ruas com tonturas, com medo do inesperado. O patrimônio cultural nos acalma, nos faz sentir em casa fora de casa. Apesar dessa importância, em São Paulo os bens culturais têm sido tratados de uma forma individualizada, como fenômenos isolados do restante do tecido das cidades. Células cancerígenas que precisam ficar isoladas.

Hoje o tombamento de um prédio representa praticamente o confisco de um bem privado em benefício do interesse coletivo. O Plano Diretor em gestação na Capital pode mudar esse quadro, dando uma dimensão urbanística aos bens históricos, reconhecendo-os como parte da cidade viva, dos vasos que levam sangue para o coração da urbe bater. E assim sendo, eles teriam não apenas um papel social importante a cumprir. Também seriam economicamente atraentes para a iniciativa privada, seja o setor imobiliário, o comércio ou a área de serviços. Ou seja, os prédios tombados poderiam ter outros usos que não apenas museus ou centros culturais. Com a perda de identidade que veio da globalização, a tendência das cidades contemporâneas é de valorizar a memória e descobrir que o patrimônio é um ativo, gera valor agregado, diz a arquiteta Nadia Somekh, nova diretoria do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Capital e presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Compresp). Ou seja, os prédios tombados poderiam ter outros usos que não apenas museus ou centros culturais.

Incorporando o patrimônio histórico na estratégia de crescimento da cidade, o novo Plano Diretor paulistano poderá enfim ajudar a manter a pulsação dos locais que são afetivamente caros aos moradores de uma das maiores cidades do planeta.

Júlio Moreno

 

 

Memórias do casarão da Coronel

O casarão da Coronel Souza Franco, em Mogi das Cruzes,  sempre despertou a curiosidade dos que circulam pela rua. Mesmo tendo abrigado por muitos anos uma pensão, são relativamente poucos os mogianos que a conheceram por dentro. Eu fui um deles, se bem que guardo vaga lembrança disso, pois era um pirralho de dois, três anos. Minha mãe Geralda, contudo, tinha muitas recordações do casarão, exaustivamente repetidas nas conversas que eu e meus irmãos Valter Luis e Lúcia Helena tivemos com ela no ano passado, antes de seu falecimento.

O Valter, por sinal, nasceu no casarão em março de 1952. Papai José comprou a pensão no final dos anos 40, com o dinheiro da venda de um bar no Brás. Meu irmão José Carlos era de colo. Depois, eles se mudaram ao repassarem o negócio para meus avós maternos, Cecília e Júlio. Não passou muito tempo, voltaram, agora comigo, recém nascido. Ficamos, provavelmente, até 1953, quando meus avós venderam a pensão para dona Lucinda.  

A pensão servia almoço todos os dias, de segunda a sexta. Era, por assim dizer, o refeitório do SENAI, recebendo todos os dias  40 funcionários. Para atender a um pedido deles, nas quartas, o prato do dia era espinafre, comprava-se 20 maços para a turma. Outro grupo assíduo eram as professoras do Colégio Normal, que ficava ali pertinho. E havia ainda o  dr. Mello Freire do cartório que saudava com rima a visita de Eny , prima de minha mãe: “Menina bonita de Cachoeira Paulista”.

Por dia saiam umas 15 marmitas. Quem entregava era o filho do “Geraldo sapateiro”, garoto bonzinho mas que vez ou outra tirava uma lasquinha dos bifes dos clientes.  

O estabelecimento tinha também pensionistas residentes. Havia  o professor  Sinibaldi do SENAI, o João do Banco São Paulo, o Robertinho da gráfica e  o Arnaldo que se casou com a Pérola.    

O casarão, erguido com tijolos de barro, data dos anos 20. Desde sempre chamou a atenção com suas colunas neoclássicas, a escadaria de mármore branco (quanto sapólio para limpar !) e os recuos laterais e de frente. A porta tinha acabamento superior com “vidros de igreja”, como Eny descreve  os vidros coloridos. Os janelões tinham vidros grossos, daqueles que se passava jornal para brilhar. Seriam franceses.

Entrando, havia um quarto para cada lado, separados por um corredorzinho de labrilho hidráulico. Depois vinha a sala grande com paredes decoradas.  Ela tinha um piso de largas e grossas tábuas de madeira. De tanto se esforçar para, ajoelhada, lustrar aquele chão com cera de pasta,  minha mãe certa vez adoeceu.

Cruzando a sala, um corredor de piso de madeira levava a mais quatro quartos. Ai vinha a sala de refeições dos pensionistas, depois a copa onde a família comia e a cozinha de piso cimentado. “O fogão era uma beleza, com oito ou dez bocas, de tijolo, com uma chapa de ferro bonita”, contava mamãe. Mais aos fundos ficavam o único banheiro, uma dispensa e um quartinho. No quintal, um ranchinho.

Li no jornal que a construção, coberta por telhas de barro, tem 195 metros quadrados e o terreno 511. Já foi maior. Na lateral, onde hoje tem a sede do PR (antiga casa do prefeito Valdemar), havia um pomar com vistosas árvores. Ele era protegido da rua por um muro com grades de ferro fundido, “inglesas”, assim como a frente da casa, com belas palmeiras e um jardim de hortências. Todo espaço externo era o reino do Ceará, nosso cachorro.  

O nascimento de meu irmão Valter mexeu com a rotina do lugar. O parto, foi demorado. Assustou Zé Carlos, meu irmão mais velho, que chorava muito. “Leva essa criança para fora !”, gritou a certa altura, para meu pai,   a “madrinha” Cecília.

Na hora, os pensionistas escutavam pela Rádio Nacional a radionovela “O Direito de Nascer”, fenômeno de audiência que inspirou uma novela da TV Tupi. Quando eles ouviram o choro do recém chegado, aplaudiram bravamente.   

Em 2010, antes da Prefeitura desapropriar o casarão, minha mãe sonhava voltar a “entrar nela” antes que a derrubassem. O imóvel já estava em péssimo estado de conservação. Hoje, o casarão luta pelo direito de sobreviver.

                                                                                                      Texto de   Júlio Moreno 

Fotos do casarão hoje, na sequência, de Clarissa Ornellas, Andréia Tuca Pinheiro e Lúcia Helena de Oliveira Moreno.

A foto histórica é do álbum da familia. Foi tirada no jardim do casarão, em 1952, mostrando meu pai, José, comigo (à esquerda na foto) e meu irmão Valter Luis no colo. Em pé, na frente, meu irmão José Carlos.

(Crônica publicada em “O Diário de Mogi” de 18 de março de 2012)

Ai se eu te pego, Esfarrapado !

fevereiro 21, 2012 2 comentários

Segunda-feira de Carnaval. Depois de uma manhã chove-não chove, o sol estava de rachar a cabeça dos foliões concentrados na esquina das ruas Conselheiro Carrão e Luis Barreto, praticamente atrás da igreja da Achiropita. 

Tradição familiar

Eram mais de duas da tarde, o sujeito vestido de mulher, a senhora observando tudo sentada na cadeira de praia instalada no posto de gasolina, os meninos com tubos de espuma, as mães das menininhas fantasiadas de rosa e outras dezenas de pessoas estavam impaciente.

Posto estratégico

Afinal, vai começar ou não o desfile do Bloco Esfarrapado, o 65º. na história do bloco mais antigo da cidade ?

Em cima do trio-elétrico, um senhor sério atrasava tudo a cada agradecimento que fazia à ‘imprensa falada e escrita”, aos policiais, ao instituto de cabeleireiros da fulana, ao escritório de advocacia “que não poupou esforços em nos ajudar” e por ai adiante. 

O  apupo do povo se agigantou quando ele pediu, muito educadamente, que este ano não se repetissem as cenas de 2011, quando alguns terminaram a farra jogando ovos e farinha nos outros. Isso depõe contra quem faz, macula o espírito comunitário que deve prevalecer no bloco e viola a lei, ainda que sejam infrações de jovens. Foi o que ele disse, complementando: “Quem trouxe ovo e farinha, pode deixar ali na nossa sede que depois a gente entrega para quem precisa“.

Pronto, todos os recados dados, o bloco enfim começa a desfilar às duas e vinte da tarde.

A música é a maior barafunda. Começou com o hino do bloco, cujo verso inicial é “Bixiga é alegria… “, o resto não dá para ouvir direito. Segue com Taji Mahan, marchinhas tipo Me dá um dinheiro ai e tem até o Hino do Corinthians…

Vendedores de cerveja e refrigerantes empurram carrinhos entre os foliões. Atrás deles, catadoras de lata enchem sacos de lixo, daqueles pretos, enormes.

No final da Conselheiro Carrão, os foliões fazem a curva na Almirante Marques Leão, depois pegam a pequena rua Una, um contorno para a Cardeal Leme, por sua vez caminho para a subida da Manoel Dutra.

Senhoras que desfilam protegem-se do sol. Senhoras que não desfilam saem à janela.Um senhor de cabelos brancos chega, civicamente, a brandir a bandeira do Brasil !

Mães brincam com crianças vestidas de ciganas, diabinhos ou simplesmente colares nos pescoços.

Mães que não desfilam levam os filhos mais retraidos ou em carrinho de bebê para acómpanhar a brincadeira de perto.Olhares curiosos

  Um  marinheiro descansa, bebendo sua cervejinha, recostado num carro. “Vada a bordo, cazzo !”, grita um gaiato.

Uma loira (oxigenada ?) , popuzuda, do jeito que o Adriano gosta,  provoca os passantes com suas protuberâncias ressaltadas por um colan bem coladinho todo rosa. Desbocada, chamou de “favelados” uns garotos magrelas que iam de lá para cá, zanzando entre os foliões. Ah, se ela  soubesse o que falaram dela…

Cantineiros barrigudos não escondem a pança.

Um palhaço gordo, meio triste, posa para fotos.

Antigas moradoras admiram a coragem de um homenzarão que saiu vestido de mini-saia de lantejoulas amarela. Olhares e comentários discretos, à moda antiga, ainda que o espírito do bloco seja anárquico. (O que, aliás, não impediu a agremiação há poucos anos de tirar um CNPJ e inscrever o nome no INPI, coisa que os organizadores do passado não admitiriam jamais).

Na Manoel Dutra, o funcionário de um estacionamento dá uma boa ajuda, refrescando a todos com jatos d´agua de mangueira.

Braveza ?

Uma senhorinha assiste ao desfile da janela ao lado de um cão bravo.

Na travessia da rua Rui Barbosa, a principal do bairro, o bloco se divide em dois. Os motoristas não quiseram esperar, como se o bloco tivesse que respeitar sinal de trânsito numa segunda de Carnaval.  Deixa prá lá, não vamos perder a alegria por causa disso.

E o desfile prossegue pelo novelo das ruas Conselheiro Ramalho, Maria José, Humaitá e Major Diogo, com alta concentração de pequenas oficinas, habitações coletivas, quitandas e naturalmente instituto de beleza, que isto não falta em lugar nenhum. O que falta, isto sim, é aquela verve política que caracterizou o Esfarrapado por décadas, até que veio a ditadura e o enquadrou. Bem, deixemos também isto de lado que a farra continua nas ruas estreitas do Bixiga…

Dona Olimpia

Na Major Diogo, o bloco pára por alguns minutos diante da casa onde mora dona Olímpia, que por duas décadas foi responsável pela “corte” do antigo cordão carnavalesco da Vai-Vai, hoje tremenda escola de samba. Com 97 anos de idade, ela segue firme e viu tudo em pé do portão de sua casa.

A homenagem só não foi mais dignificante porque um homem  que “viajava” sobre o carro do trio-elétrico teve que pedir a palavra e apelar para que todos levassem aquilo na brincadeira pura, sem exageros. Alguém tinha pisado na bola, quebrando o espírito de “bloco de família” do Esfarrapado.

No final eram milhares

“Quem quer jogar farinha e ovo, que vá jogar no PAI e na MÃE !!!” – berrou. Nada que lembrasse as palavras proferidas educadamente por aquele senhor sério no início do desfile. Deu resultado:  até o final não aconteceu mais nenhum incidente do gênero.

O bloco passa depois diante da Casa da Yá-Yá e do Teatro Brasileiro de Comédia, pontos marcantes da história do bairro. E pega a Santo Antonio, rumo à 13 de Maio dos cafés boêmios.

Papai levou

A subida é feita caminhando, não mais balançando o corpo pra cá-prá lá. O calor continua forte. Tem gente exausta.

E às cinco e dez tudo acaba diante da igreja da Achiropita. Naturalmente com um pedido de benção à madona do bairro.

Quer dizer, acaba o desfile, mas o pula-pula continua, de volta na Conselheiro Carrão. Ai sim o trio elétrico fica livre para tocar alto e bom som “Ai, se eu te pego/ Ai se eu te pego… “.

A madona perdoa

Tudo bem, tudo bem, aquilo já não faz mais parte do Esfarrapado, como alertou a um fotógrafo estrangeiro – tinham vários durante o desfile – um marronzinho da CET.

                                    

                                           Texto e fotos de Júlio Moreno

                                                                               20/02/2012

 

 

Leia também:

Os Esfarrapados

(crônica de 02/03/11)

Dia de festa no Bixiga, o reino dos anônimos

fevereiro 7, 2012 1 comentário

O Bixiga, é inegável, perdeu há tempos a paisagem romântica  a la italiana, com as  nonas nas janelas, meninos jogando bola de couro nas ruas e o vendedor de queijos batendo de porta em porta. Hoje boa parte das casinhas ainda em pé abriga uma gente humilde, em geral migrante nordestino, que trabalha no centro. As cantinas sobrevivem, mas são poucas as autênticas, que não investiram em ampliações, em certos casos para ganhar na quantidade e não na qualidade.  Os teatros minguaram, o museu de memórias do bairro precisa de ajuda, a igreja Achiropita cerra portas fora dos horários de missa.

Inegável também que nem tudo está perdido, é certo.  A escola de samba Vai-Vai, na contramão, hoje tem um fã clube além das fronteiras paulistanas. A Padaria Basilicata, de 1914, “exporta” pão italiano para toda região metropolitana. Outra coisa que resiste é a atmosfera de uma comunidade de bem com a vida, ainda que seja uma vida dura.

No dia 25 de janeiro, quando São Paulo completou 458 anos, o bairro voltou a repetir, após quatro anos de jejum, a divertida festa do bolo de aniversário da cidade iniciada em 1997. Tudo bem, tudo bem: já não é a mesma farra de antes. No princípio, o bolo era uma junção de várias bolos retangulares, confeccionados pelos próprios moradores em suas casas e untados com o mesmo glacê para dar a impressão de um só. Unidos sobre mesas  eles tinham (ou acreditava-se que tinham) a extensão do número do aniversário da cidade.

Depois a coisa foi ficando cara e complicada, o bolo passou a ser feito em cozinha industrial, mas continuou provocando muita polêmica pela balburdia que acontecia no final do “parabéns para você…”. Todo mundo avançava e era um salve-se quem puder para garantir seu pedacinho. Parecia filme de pastelão. Coisa de envergonhar a cidade, diziam muitos. Isso contribuiu para o recesso e o retorno mais “civilizado” do evento. No 25 de janeiro de 2012, o bolo com o tamanho do aniversário da cidade ficou na imaginação. Os que foram ao Bixiga ganharam mini-bolos de pão-de-ló (de 300 gramas cada um), devidamente embalados, ofertados pelo Pastifício Renata, da cidade de Sumaré. Foram oito mil unidades.

Valter Taverna, autoproclamado primeiro-ministro da “República do Bixiga” ficou satisfeito. Ele herdou de Armando Puglisi a responsabilidade pelo bolo. Armandinho, já falecido, era despachante quando lhe dava na veneta de trabalhar. Foi o criador do hoje semi abandonado museu de memórias do bairro. Valter, cantineiro,  montou um centro de tradições mais ou menos semelhante. Enfim, apesar de amigos, eles não deixavam de disputar o galardão de depositário da história do Bixiga.  Na morte de um, o outro assumiu seu lugar. Merecidamente.

Armandinho costumava dizer que seu museu destinava-se a realçar a vida dos “varridos da história”, a gente anônima da cidade, não os grandalhões que tradicionalmente são os únicos lembrados nos museus oficiais.  Esse espaço de destaque para os anônimos o Bixiga preservou. No aniversário da cidade, logo após a festa do bolo, teve um concurso de sósias. Vieram Pelé, Ronaldinho Gaúcho, o Papa Bento XVI, o Madruga da TV e outros. Melhor dizendo, gente muito parecida com eles, moradores de diversos rincões paulistanos, que teve seus 15 minutos de fama posando para fotos ao lado de autoridades e curiosos.

A festa do aniversário da cidade foi na rua Barbosa, diante dos tapumes que há anos cobrem o prédio art decô do antigo Cine Rex, na esquina das ruas Rui Barbosa e Conselheiro Carrão. Esquina histórica, pois ali funcionou depois o Teatro Aquarius, onde foi encenado em 1969, logo após o AI-5, o musical Hair, que entre outros atores hoje famosos revelou a mocinha Sonia Braga. Mais tarde, como Teatro Zaccaro, serviu de set para Faustão colocar no ar seu programa “Perdidos na Noite”, que o revelou para a TV.

A cor azul dos tapumes não alivia a tristeza de quem vê aquelas “ruínas”. Mesmo assim, a festa tem que continuar e não apenas porque esse era o dia do aniversário da cidade. A um quarteirão e alguns metros dali,  num bar da rua 13 de Maio, em  frente à igreja Achiropita, comemorava-se os 75 anos do Tinin. Para quem não conhece, Tinin é um pintor de mãos firmes e  caprichosas, daqueles que antes da Lei da Cidade Limpa ganhavam seu honesto dinheirinho fazendo placas, letreiros e faixas para o comércio e o distinto público em geral.

À parte disso, Tinin  foi durante muitos anos o responsável pelo Livro de Ouro que arrecadava fundos botar na rua o Bloco Esfarrapado, o único sobrevivente dos blocos de sujos da cidade, que sai toda segunda-feira de carnaval. Outra criação, não por coincidência, de Armandinho e amigos, que do saco cheio do que não ter o que fazer na segunda de Carnaval de 1947, foram se reunir na porta do –  também não por coincidência – Cine Rex, ponto de encontro do bairro. Ali combinaram voltar para casa, vestirem-se da maneira que quisessem (Armandinho foi de camisola, outro de babado sobre paletó, um de ceroulas e gravata borboleta e assim por diante) e botaram a primeira versão do bloco na rua.

Por décadas, o Esfarrapado foi anárquico, sem presidente e verba oficial. Agora – mais um sinal de mudança – já tem até CNPJ, pois teve que oficializar sua existência perante as autoridades constituídas para poder um dia, quem sabe, receber alguma verba de patrocínio. Coisa, de fato, necessária, pois a época do Livro de Ouro já era. Outra medida profilática foi o registro do nome do bloco no INPI. Já viu isto ?

E chegando aos finalmentes, registre-se com o devido destaque que a festa do Tinin foi muito boa. Uma festa bem bixiquenta, onde se misturaram amigos da velha guarda “italiana”,  o baiano Pai de Santo Francisco (há 30 anos estabelecido na Almirante Marques Leão, conhecido pelas sacolas de alimento que distribui todo mês), o  mestrando em bioinformática Abdalla (brasiliense, ele estuda a translução de sinais da cana-de-açúcar, vale dizer, sua genética) , cabos eleitorais do bairro, advogados, ao menos um jornalista (eu) e um pessoal do som bem animado.  Um caldeirão de raças,  profissões e status social. O espelho de Sampa.

A comemoração teve início de manhã e foi até a noite. O bar era pequeno para acomodar os amigos do Tinin,  tiveram que botar mesas na rua e, junto ao meio-fio, o forno de carvão que defumava a todos  no nobre mister de grelhar as lingüiças ardidas servidas com pedaços de pão italiano. E cerveja, muita cerveja. Só faltou o bolo, mas isto pode ficar com a cidade.  Quanto mais ainda pão-de-ló embalado,  sem desmerecer, em absoluto a nova versãoda festa do bolo do Bixiga,  desde que o evento popular não perca a graça.

Pelas ruas de Çukurcuma

dezembro 18, 2011 2 comentários

Um filete de água barrenta margeia o meio-fio de um dos lados da rua. Vem da demolição de mais uma antiga casa de madeira sobre a calçada na parte alta da ladeira  Çukurcuma (isso mesmo, com cedilha na inicial),  chegando até o hamam, uma casa de banho turco cuja tabela de preços não indica ser grande coisa.

Lugar estranho para um passeio pela Istambul das mesquitas, dos palácios dos sultões e da panorâmica paisagem do Bósforo, o estreito que a divide em duas partes: uma na Europa, outra na Ásia. O turista, no entanto, tem interesse nisso mesmo, algo que não está no guias. Ou ainda não está.   

Meu desejo é vivenciar o universo urbano descrito nas obras do escritor Orhan Pamuk, Prêmio Nobel da Literatura de 2006. Estamos em pleno verão com 30 graus de temperatura e uma atmosfera especial criada por mais um Ramadã. Durante um mês inteiro, o muçulmano pratica o jejum desde que as vozes que ecoam das mesquitas anunciam o início das preces, no meio da madrugada, até elas serem ouvidas pela última vez no dia, no início da noite. Ai começam as confraternizações entre familiares e amigos, sem nada alcoólico para animar.   

A alegria dos turistas

Hospedado na região do glamouroso Pera Hotel, o preferido dos passageiros do lendário Orient Express, vou a pé ao meu destino. Basta pegar a Itiskal Cadessi rumo à praça Taksin. A Itiskal é hoje uma rua de pedestres, com grande concentração de lojas de marcas internacionais, onde trafega deliciosamente um bondinho vermelho. A Taksin é a praça principal de Istambul, local das manifestações políticas e culturais mais importantes.

Na altura do liceu Galatassaray, que deu origem ao time de futebol do mesmo nome, dobro à direita na Yeni Carsi Cadessi e vou descendo a ladeira. Cada metro caminhado me leva mais e mais a uma Istambul ainda reservada.
 

Charmosos balcões

Surgem os primeiros prédios com balcões de madeira fechados. É cedo, furgonetas de entrega fazem seu trabalho abastecendo os pequenos bazares e mercearias da rua. Entro nas estreitas, curtas e íngremes travessas secundárias. Prédios de alvenaria amarelos e cremes contrastam com as velhas construções de madeira. Já estou em pleno coração de Çukurcuma, um histórico bairro do distrito de Beyoglu (em turco o g tem uma espécie de “til”, acento que não existe em nossos teclados).

 A pronúncia correta do nome do bairro é “chu-KUR-ju-ma”, como me corrigiu Orhan Pamuk em ligeiro papo que mantive com ele após sua conferência no encerramento do ciclo Fronteiras do Pensamento, dia 6 de dezembro, na Sala São Paulo. 

À espera do "enobrecimento"

É um bairro histórico e popular, no passado dominado por imigrantes gregos, armênios e levantinos mediterrâneos. A área passou por um período de esquecimento e decadência e agora está em processo de transformação. O que explica a existência de uma moderna loja de móveis de design em frente a um ferro-velho, bares boêmios de paredes grafitadas ao lado de prédios residenciais, catadores de lixo rondando galerias de arte, vitrines de antiquários que abafam a gritaria dos meninos que jogam bola na rua e contrastes desse gênero.

Dá para perceber o que os estudiosos urbanos chamam, de forma intelectualizada, de “gentrificação”, neologismo que define o processo de “enobrecimento” de um bairro. Ou, em linguagem mais simples, a substituição de uma população pobre por uma mais abastada. Um Soho.

Çukurcuma é uma contração da expressão “Cuma namazını şu çukurda kılalım”, que lembra que era naquela região de barrancos que o sultão otomano Mehmed II fazia suas orações das sextas-feiras, antes de conquistar Constantinopla (atual Istambul), acabando com o Império Bizantino, em 1453. Ele tinha só 19 anos quando completou a façanha.

Morada do passado

Volto a descer a ladeira do liceu. Paro para fotografar, na esquina da rua Gul Baba, uma casa de madeira escura, de três pisos. Varal de roupa do lado de fora e vasinhos de flores no beiral dos janelões com vidros que se abrem na vertical. Cortinas brancas Um intruso cano de PVC, para conduzir a água da chuva, macula a fachada centenária. A construção é uma das remanescentes da arquitetura original do bairro, muitas delas “reclinadas sobre a calçada como à beira de um colapso” (Pamuk).

Cruzo com um bar em cujas mesinhas da calçada motoristas de táxi jogam gamão no aguardo de clientes. Dois suportes de ferro exibem mais de vinte – contadinhos – diferentes jornais do dia, todos com manchetes em letras garrafais e uma profusão de cores.

O bar faz esquina com a rua por onde corre o filete de água barrenta, meu destino. A estreita via, “popularmente conhecida como ladeira” (Pamuk),  tem o mesmo nome do bairro: Çukurcuma. O coração pulsa de ansiedade. Eu estou a poucos passos da (ao menos na minha imaginação) mística casa onde está sendo instalado o “Masumiyet Müzesi” ou “Museu da Inocência”, o mesmo nome do primeiro livro que Orhan Pamuk escreveu após  ganhar o Nobel.

Na esquina do primeiro beco à direita, fica a casa de banho turco, onde um cartaz diz ser a mais antiga da cidade, algo do qual duvido. Há carros parados nas laterais, mas não há trânsito e assim posso caminhar pelo meio da estreita rua.  

A bandeira do Fenerbarhçe, o grande rival do Galatassaray, pende de uma sacada à esquerda.  Na esquina do terceiro beco, no lado direito, estou numa vendinha.  Compro uma garrafa de água. O rapaz que me atendeu só fala  turco, digo umas duas três vezes o nome de Pamuk, ele deduz o que procuro e mostra um predinho cor de vinho intenso,  na esquina da viela Dalgiç, o segundo beco da rua.  Eu tinha passado direto pela casa do museu e não percebi! Como isso pode acontecer? Afinal, sua pintura novinha a distingue das demais. Mas não há cartaz algum no lado de fora.

Masumiyet Müzesi

É um prédio de frente estreita, fundo extenso, com três pavimentos, contando-se o térreo.  A construção, de 1897, fica próxima do estúdio onde Pamuk trabalha. Ele a comprou há 12 anos, com ajuda de amigos arquitetos a restaurou e ambientou ali uma boa parte de seu romance. Agora, vai abri-la para visitação pública, na forma de um museu. 

O romance se passa nos anos 70, época em que Istambul vivia dias agitados, com muitos atentados políticos atrasando uma sonhada modernização social e cultural nos moldes europeus O livro é narrado por Kemal, filho de um rico empresário, com mais de 30 anos, que abandona a noiva Sibel, inteligente e moderna. Ele tomou a iniciativa por causa de uma obsessiva paixão por uma prima de 18 anos, a bela Fusun (em turco o nome leva um trema no primeiro u), com quem mantém um secreto romance antes do noivado.

Rompido o noivado, ele sofre tremendamente até reencontrá-la, só que Fusun já se casara com um amigo de infância, o que ajudou a limpar a honra da moça de família pobre e tradicional que tinha feito sexo antes do casamento. Com o apoio dos pais dela, Kemal então passa anos visitando a casa deles, pelo prazer de estar junto dela ainda que seja só para ver televisão. Prazer que se prolonga com a posse de objetos retirados sorrateiramente da casa de Fusun: um pente, uma ponta de cigarro com o batom dela, fotos, vasinhos, um brinco e até um fecho da porta do banheiro.  Não vou contar mais nada, recomendo a você ler o livro, pois vale a pena.

De início, segundo o escritor, Kemal não se dá conta de que estava iniciando uma coleção, “mas apenas respondendo a algo espiritual, a uma dor amorosa”. Só mais tarde o personagem pensou em criar o museu juntando todas aquelas peças, fazendo delas o fio condutor de sua história.

Pamuk em SP (foto Greg Salibian)

Isso na ficção, pois na realidade Pamuk começou o romance com a idéia de fazer o museu, o que o obrigou a passar um bom tempo coletando objetos da década de 70 para servirem de inspiração, assim como comprar a casa, relembrar seus tempos de roteirista de cinema, comprar vestimentas da época,  buscar fotos de paisagens e pesquisar como eram os anúncios, rótulos de bebidas e os restaurantes da moda.     

São coisas do cotidiano, das pessoas comuns, ao contrário dos grandes museus que só tratam dos que tiveram poder. De alguma forma, o museu – medidas as devidas proporções – me lembrou o Museu Memória do Bixiga, criado pelo saudoso Armandinho Puglisi a partir de doações de objetos de antigas famílias do bairro. Um museu, como ele gostava de chamar, dos anônimos varridos pela história oficial, parafraseando outro escritor, Jorge Amado.

Ohran Pamuk é o próprio curador do museu que transmutou da ficção para a vida real.  Tudo o que está no livro vai ser exposto. A inauguração deve acontecer provavelmente em abril de 2012, pelo que ele me disse.   

O zelador da casa ?

Passo uns 15 minutos fotografando a casa por fora. Chego até a deitar no chão para buscar os melhores ângulos, apesar do forte odor daquela água barrenta que escorre junto ao fio da calçada. Um gato branco, em cima de um container de lixo, atende acenos, vira-se e dá ambiência para uma foto em dois planos.

 
Em outra, pego o reflexo na janela da casa de roupas estendidas nos prédios

Reflexos do cotidiano

do lado oposto da rua. Naqueles minutos creio ter experimentado a sensação da arte de criação descrita por Pamuk. Deixando de lado a modéstia, me pergunto se eu não teria realizado, com imagens, o que Pamuk diz fazer com palavras: tornar as coisas irrelevantes importantes e as coisas importantes irrelevantes. Ele também afirma que o romance é uma arte visual e, ao contrário do que muitos pensam, para o escritor o mais difícil não é achar primeira palavra, mas definir a primeira imagem de um livro. E, de fato, eu não teria escrito este texto, não tivesse ido retratar o cadinho urbano que aqui descrevo.   

Na conferência, Orhan Pamuk contou que muitos – em especial as mulheres – lhe perguntaram se um dia teve uma paixão como a de Kemal ou, mais diretamente, se não seria ele próprio o personagem narrador? Ele diz que não, mas as pessoas seguem descrentes, tamanha a riqueza dos detalhes e a emoção da narrativa. Não dá para ser só fantasia. Ocorre que a arte do ficcionista, diz, é justamente mentir. Assim, se o leitor insiste, ele deixa barato, não se esforça mais, que continue pensando que ele e Kemal são uma só pessoa. No fundo, confessa,  ele deseja mesmo que o leitor pense dessa forma.

No entanto, se ele próprio deixa a dúvida fica no ar, nós temos todo o direito de ampliá-la. É legítimo, então, perguntar se houve em sua vida uma prima como Fusun? Quem seria?  Ele se cala. ”Ler um romance significa compreender o mundo por uma lógica não cartesiana – ou seja, com a constante e inabalável capacidade de acreditar ao mesmo tempo em idéias contraditórias”. Ele não se sente trapaceiro ou hipócrita por dar abrigo a esses contraditórios.

“A arte de escrever romances é a capacidade de perceber os pensamentos e as sensações dos protagonistas numa paisagem – quer dizer, entre os objetos e imagens que o rodeiam”, diz ele em seu livro mais recente, “O romance ingênuo e o sentimental”. A frase define bem o resto de minha caminhada pelo bairro. Busco onde haveria ainda o autêntico.

Esbarro primeiro numa banquinha de rua de um senhor de boina rústica e barba branca. Comprei dele um cachimbo com bocal de barro e pito de ferro e cobre, “da época dos sultões”. Paguei 25 liras turcas, algo como 25 reais. Ele o embrulhou numa folha de jornal e prendeu com elástico. Hoje me arrependo de não ter comprado outras bugigangas do velho, seriam mais significativas que as mesmices que trouxe dos pontos turísticos de Istambul. Como Kemal (Pamuk ?), também coleciono objetos e o cachimbo está entre os que me são mais afetivos. 

Passeio pela história

Descendo e subindo  ladeiras, caminho na direção ao Bósforo, onde já se pode ouvir as sirenes das balsas. Não vou, contudo, até  Cihangir,bairro boêmio da moda,  às margens do Estreito. Fico em Firuzaga, onde encontro outra pequena mesquita, a Haci Piri Cami, do século XVI, na parte alta de uma praça. Na parte baixa funcionam estabelecimentos comerciais, dando a impressão de que eles e o templo são uma construção só.  

O kebab não tem pressa

Um dos negócios é um restaurante de kebabs (pedaços de carne enrolados em finas fatias de pão). Garçons conversam tranquilamente sentados no lado de fora. A poucos metros, as janelas de um prédio desbotado se destacam pelos desenhos de gatos dos vidros – aliás esses bichinhos são numerosos em Istambul. Vendedores de utensílios usados puxam seus carrinhos de madeira com pinturas de flores. Nem oferecendo dinheiro consegui tirar a foto de um deles.   

Tomo um çay (chá) e descanso numa pequena meyhane (equivalente a um botequim). Volto a caminhar. Estou perdido. Subo uma ladeira onde um jovem me oferece para fumar um narghilé.  Recuso. Uns 50 metros depois, chego a uma movimentada rua de pedestres, com um bondinho vermelho indo e vindo. Voltei à realidade turística da Itiskal Cadessi, mas Ohran Pamuk continua por perto com seus livros em destaque nas prateleiras de madeira escura da minúscula na livraria Robinson Crusoe.

“Volte a Istambul”, convidou o escritor após autografar meu exemplar de “O Museu da Inocência”. Se eu voltar, penso em escolher outra estação do ano, para experimentar a sensação de ver a casa-museu “banhada de pérola peculiar dos dias de cerração”.

                                                      Júlio Moreno    (texto e fotos de Istambul)

Uma visão aberta da cultura

Merecem elogios as declarações iniciais do novo presidente do COMPHAP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico) de Mogi, João Francisco Chavedar. Segundo o arquiteto,  a partir de agora o Conselho não irá restringir sua atuação à preservação dos prédios históricos, estendendo-se também às festas religiosas, obras de arte e outras  manifestações culturais que compõem a memória mogiana.

Essa visão está rigorosamente alinhada com a proposta pela Plataforma Cidades Sustentáveis, que defende o desenvolvimento de políticas culturais que “respeitem e valorizem a diversidade cultural, o pluralismo e a defesa do patrimônio natural, construído e imaterial, ao mesmo tempo em que promovam a transmissão das heranças naturais, culturais e artísticas”. Da mesma forma, a anunciada criação de câmaras temáticas compostas por membros da sociedade para ajudar o Conselho no cumprimento de seus objetivos, encaixa-se como uma luva na recomendação da Plataforma quanto ao incentivo a “uma visão aberta de cultura”, baseada no diálogo democrático entre comunidade, profissionais da área cultural e gestores públicos.

A Plataforma Cidades Sustentáveis é uma espécie de carta de recomendações proposta pela Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis e pela Rede Nossa São Paulo para nortear os debates em torno da escolha das novas autoridades municipais do País em 2012. Sustentabilidade não é apenas conciliar as necessidades do homem com a natureza, sem que ela seja explorada à exaustão, diz o documento. Envolve também o renascimento do humanismo e, nesse aspecto, a cultura é fundamental.  

Quanto mais expressar o desejo da comunidade, mais fácil será para o Conselho obter não apenas ajuda do poder público, mas também da iniciativa privada. Outro segredo, segundo a Plataforma, é “estabelecer acesso gratuito ou a preços simbólicos nos equipamentos e espaços culturais públicos”.

Prover a todos, especialmente crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam exercer o papel protagonista no desenvolvimento sustentável local e regional é outra recomendação da Plataforma. A educação, nesse contexto, deve ir além da sala de aula. “A educação deve servir menos para permitir à pessoa escapar de sua realidade e mais para ajudar a transformá-la. Neste sentido, as pessoas devem se apropriar do conhecimento do local onde vivem, das suas dificuldades e de seus potenciais”, diz o documento.

E aqui vai um belo recado para nossas instituições de ensino superior: “Cada universidade pode gerar um centro de documentação sobre a sua região, e organizar uma rede de consulta científica para assegurar o conhecimento sobre todo o território, e ser uma articuladora do conhecimento necessário aos diversos agentes econômicos e sociais”.

Outro eixo da Plataforma é, de certa forma,  complementar à educação. Trata-se de apoiar e criar as condições para uma economia local dinâmica que reforce o acesso ao emprego sem prejudicar o ambiente. Alguns caminhos são o desenvolvimento de princípios e indicadores de sustentabilidade para as empresas, o encorajamento do mercado de produtos locais e regionais de alta qualidade, a diversificação de atividades para não ficar dependente de um produto de monocultura, por exemplo, e a promoção de um turismo sustentável.

                                                                          Júlio Moreno

(Publicado em “O Diário de Mogi” de 05 de outubro de 2011).

A morada do Divino

Nessa época de festa, o Divino domina a cidade. Somos todos “divineiros”. Antes e depois do evento, contudo, o corre-corre da vida urbana não nos permite uma devoção tão intensa. Exceto na serra do Itapeti. A principal maravilha de Mogi é um Império do Divino em tempo integral. E cada capela e praticamente toda casa é um subimprédio. O ano todo.

No km. 15 da Estrada do Beija-Flor, uma moradia de paredes de taipa de pilão tem até “um quarto do Santo”, como Antonio Pereira de Paula, 63 anos, chama o lugar onde uma imagem do Divino se destaca num oratório que tem o encantamento daquelas coisas puras da roça. Herança de seo Benedito e dona Maria, que eram, por assim dizer, os zeladores, da histórica capela de Santo Alberto. Em um alambique em seu sítio, eles fabricavam a apreciada pinga Beija-Flor, hoje de uma produção limitada. Este ano, uns cem litros serão doados para a festa.

O casal tinha participação marcante nos preparativos da festa do Divino da própria capela, realizada no domingo seguinte ao da Pentecostes, quando se encerra a festa da cidade. A tradição é mantida por um sobrinho, Joaquim Marciliano, e outras pessoas da comunidade como seo Bento e dona Dulcinéia. Tem missa, procissão, quermesse e grupos de congada e Moçambique, como na cidade.

A devoção de dona Maria era tão grande que ela tratava como “o Senhor Divino” a imagem da pomba branca símbolo da terceira pessoa da Santíssima Trindade. Seguem existindo as rezas que seo Benedito promovia no oratório de sua casa todo dia 13 de maio, seu aniversário, e no dia de São Pedro. Aparecem pessoas de toda Itapeti para as quais são servidos café e bolo.

Mais para a encosta do lado do vale do Paraíba moram seo João Ferreira e dona Albertina. Ela faz de tudo pelo Divino. Na serra, conduz rezas, andando com a imagem de casa em casa, reminiscência do passado. Na Entrada dos Palmitos, conduz carro-de-boi, assim como a filha Silvana, também “carreira” de primeira, vocação que já está sendo seguida pelo neto. Carros e animais são do sítio da família, coisa agora mais rara na serra.

Antes da festa da cidade, dona Albertina trabalha como voluntária, fazendo doces na Casa da Festa. Doces da laranja, mamão, abóbora e batata doce, feitos com tacho de cobre no fogão a lenha. Uma parte das laranjas, aliás, vem da serra, doação do “Paulinho da Pinga”. A fé dos moradores da serra impressiona Josemir Ferraz de Campos, da Associação Pró-Festa do Divino. “São gente simples, de devoção profunda, coisa de pessoa sofrida, vivida… “. Ele conta ter conhecido na região de Santo Alberto um roceiro analfabeto que rezada em latim e sabia de cor o santo de todos os dias do ano.

Para seu irmão, Jurandyr Ferraz de Campos, que já foi festeiro, “Nhá Zefa” é um caso exemplar. Ela morava com a família na fazenda de Zeca Franco, na serra do Itapeti, e desde menina “conviveu” com o Divino. Seu pai era “bandeireiro” e costumava sair pela morraria, a pé, ao lado do “esmolar” e uns músicos, para angariar donativos para a festa. Ela ia junto.

“Nhá Zefa”, que viveu 91 anos, gostava de contar histórias fantásticas. Como a do pai que teve com seu pai morto. Ele teria lhe pedido para entregar ao Divino um dinheiro que arrecadara para a festa e que ainda estava em sua casa. “Nhá Zefa” foi conferir, estava tudo ali, guardadinho na morada do Divino. E ela pode concluir a tarefa do pai.

                                                                                         Júlio Moreno

(Publicado em “O Diário de Mogi” de 08 de junho de 2011)

Saudades de alguém

“Está chegando a hora” é uma marchinha carnavalesca sempre presente em nossas despedidas festivas. Todos sabem de cor sua letra, mas poucos conhecem o compositor que a adaptou da ranchera mexicana “Cielito Lindo”. Eu fazia parte da maioria até o início de 1980 quando, ao escrever uma reportagem sobre os 50 anos da escola de samba Vai-Vai,  localizei na “boca” de carros usados dos Campos Elíseos, um negro de uns 150 quilos, cabelos e cavanhaque brancos.

Henrique Felipe da Costa, o Henricão, tinha 72 anos.Nem o sorrisão cativante, sua marca registrada, disfarçava seu aborrecimento. Um dos fundadores da Vai-Vai, e autor das primeiras marchas do então cordão carnavalesco, ele tinha sido esquecido nas comemorações do cinqüentenário da escola.  Sequer aceitou o convite para assistirmos ao desfile na avenida Tiradentes.

Vivia só em um apartamento acanhado de uma feia rua do Pari. Um ostracismo de dar dó para quem alegrara tanta gente com sucessos como “Só Vendo que Beleza” (“Eu tenho uma casinha / Lá na Marambaia…”), “Sou Eu” (“Se acabo você encontrar / alguém dormindo na rua / coberto com o manto da lua / sou eu…”) e “Sons dos carrilhões” (choro de João Pernambuco), entre outros.

 Não tive êxito em tentar atenuar sua mágoa com a Vai-Vai, mas não desisti da idéia de ajudá-lo. Hoje tenho enorme satisfação em contar minhas conquistas.

 Um de suas inquietudes era saber por onde andaria aquela  Carmelita Madriaga, a moça que ele tirou de um programa de calouros, transformou em sua parceira de palco, batizou com o nome artístico de Carmen Costa e deu de presente para a música popular brasileira.

Por sorte, em fevereiro, Carmen estava fazendo uma temporada no “Opera Cabaret” do Bixiga. Levei o Henricão até lá. Foi um reencontro memorável. A cantora chamou o antigo companheiro ao palco e, de improviso, eles cantaram e dançaram alguns velhos sucessos da dupla. O público, surpreso, delirou. E o dono da casa o contratou para mais algumas noites.

Dias depois, ele estaria falando, por minha indicação, com Aluízio Falcão, da rádio e estúdio Eldorado. Primeiro gravou um programa para a rádio, em que cantou e deu um depoimento. Recordou o seu passado, como o dia em que saiu de Itapira, trazido para São Paulo por um comerciante corintiano que se entusiasmou ao vê-lo jogar no gol do time local. Só que na Capital, ao invés do Parque São Jorge, o moço tomou o rumo das gafieiras. Logo estaria cantando no rádio, logo foi para o Rio, logo conheceu Carmen, logo excursionaram pelo País… Escreveu mais de cem músicas, foi ator, ganhou prêmios.

O momento encantado viria numa segunda visita à Eldorado: Aluízio o convidara para gravar um LP. O sambista caiu no choro. “Coloquei minhas tristezas para fora”, diria depois, lembrando o desfiladeiro em que fora jogado pelas gravadoras por tantas décadas.  

O estúdio o deixou a vontade. As músicas do disco foram escolhidas pelo próprio compositor e cantor e até um bombardino, instrumento em desuso, foi arrumado para a gravação da marcha-rancho “Andorinha”.

 Meu orgulho foi correspondido por sua gratidão expressa na dedicatória :“Para o meu maior amigo, amigo amigo mesmo…”.

De novo catapultado para a cena artística, Henricão  seria eleito em 1984 o primeiro “Rei Momo” negro de São Paulo. Em meados do mesmo ano, faleceu.  Sobre o caixão havia uma bandeira da Vai-Vai. Hoje é nome de rua e escola.

                                                                                                                    Júlio Moreno

(Publicado em “O Diário de Mogi” de 13 de abril de 2011)

“El busca vida”

Meu pai, José Moreno Rueda, falecido em 2007, sonhava realizar duas coisas ao  se aposentar: construir uma casinha em um terreno atrás do Sesc de Bertioga e rever sua Espanha, de onde saira menino. Em 1996, ele vendeu o terreno e, com a grana, fomos juntos visitar Madri e Andaluzia.

“Não quero me emocionar, senão eu tenho um troço”, ele me disse quando tomamos o avião para uma longa e mágica jornada. Antes da viagem, visitamos a antiga “Hospedaria de Immigração”, no Brás, em São Paulo, hoje museu, onde um livro registra que ele dera entrada ali 71 anos antes, mais precisamente em 3 de dezembro de 1925. Tinha 12 anos de idade e acompanhava vovô José, vovó Maria e os irmãos (mais novos) Miguel, Antônio e Antônia.  (Aqui nasceria a irmã  caçula, Josefa).

Saíram de Alhaurin El Grande, um pueblo andaluz onde já se nasce com apelido. Como ali não há colocação suficiente para todos, seus habitantes são conhecidos como el busca vida, por terem que trabalhar em cidades vizinhas. Meu avô ousou ir mais longe, comerciar frutas na África. E caiu na armadilha de marroquinos inimigos da Espanha.

Depois de ter sido dado por morto, ele reapareceu em Alhaurin aos trapos. Pouco contou do que se passou, colocando toda sua energia nos tramites para embarcar a família, semanas depois, no vapor Córdoba. Queria livrar os filhos de sofrimento igual. Parecia intuir o estouro da Guerra Civil Espanhola.

Nenhum deles voltou a rever a cidade, exceto meu pai. Por coincidência, na  semana em que chegamos estava de volta à matriz a patrona Virgem de Gracia, depois de vários anos de reforma da igreja. Ouvimos uma pitoresca história sobre o paradeiro da santa durante as obras. De tempos em tempos, a imagem era hospedada numa das casas do pueblo. Calhou que quando a Virgem estava na casa de um casal de irmãos, a mulher enferma morreu. Foi difícil convencer o irmão deixar a patrona sair, ele a queria como substituta da companhia perdida. E isto acrescentou mistério ao encanto da procissão do retorno.

Encontramos parentes do lado dos Morenos, de meu avô,  e do lado dos Ruedas, de minha avó. Com eles aprendi a fazer paella, cuja receita aos poucos fui mudando e hoje a denomino alhaurina, por ser única.  Visitarmos um moinho de trigo em funcionamento há cinco séculos, saborearmos a rica comida da marisqueria Casa Paco, vimos a Fuente Lucena e provamos os típicos bollos de aceite.

Fomos  fotografados junto ao Arco del Cobertizo, do século XII, marca dos sete séculos de presença árabe na região, quando mudaram o nome do lugar do romano  Lauro Nova para Alhaurin, que significaria “Jardim de Alá”.

No cartório, copiamos a página com a acta de nacimiento dele. O momento mais emocionante foi a visita à casa onde ele nasceu, com mais de 200 anos de construção. Pequenina, paredes grossas, piso ainda de pedras do tamanho de um punho  fechado, como ele sempre lembrava. Punho de criança, pois eram pedras pequenas. (Em 2010, voltei a ela, com meu filho Guilherme, e a encontrei abandonada, funcionando como depósito de uma oficina de motos).

Inesquecível o sorriso e a leveza de caminhar de meu pai durante um passeio pelas ruas do casco viejo da cidade, logo após a leitura de uma reportagem do jornal “Sur” sobre seu retorno, tido como um feito histórico. Um sorriso que lembrava uma foto sua com 12 anos, prestes não apenas a buscar, mas a semear a vida – lá e cá.

Júlio Moreno

(Publicado em “O Diário de Mogi” de 30 de março de 2011)

Something in the way…

março 24, 2011 1 comentário

Nesses tempos em que tudo está mudando, nem as lembranças de nosso passado ficaram de fora. O conceito de patrimônio histórico foi ampliado há poucas semanas com o “tombamento” da  faixa pedestres localizada em frente ao estúdio londrino Abbey Road, eternizada na capa do álbum homônimo dos Beatles em 1969. É a primeira sinalização urbana a ganhar esse status em todo o mundo.

“Essa travessia não é um castelo ou uma catedral, mas graças aos Beatles e a uma seção matinal de fotos de 10 minutos, ela também tem o direito de ser vista como parte do nosso patrimônio”, afirmou  John Penrose, ministro do turismo no Reino Unido.

Na capa do LP, Paul, John, Ringo e George aparecem cruzando a rua sobre a faixa. O local não é exatamente o mesmo, a travessia foi movida por alguns metros devido ao trânsito, mas a fama permaneceu. Toda hora tem turista visitando o lugar e parando o tráfego de veículos só para imitar a célebre cena dos “reis do rock”.  Se você quiser conferir, veja imagens em tempo real no site www.abbeyroad.com/visit.

O conceito tradicional de “patrimônio histórico” refere-se a construções antigas, obras de arte de mestres célebres, enfim só coisas gloriosas ligadas a um passado que nem todos reconhecem como parte de sua vida. Nos anos 1970, a idéia foi expandida para abranger não apenas grandes monumentos, mas um conjunto de bens culturais mais próximos da identidade dos cidadãos comuns.

O “patrimônio cultural” engloba paisagens, lugares sem valor arquitetônico mas com grande valor afetivo para a comunidade (tipo o cine Belas Artes, em São Paulo),  tradições como a festa do Divino de Mogi, a aguardente Gentileza de Maria da Fé (Minas), artesanatos, saberes, o samba de roda do Recôncavo Baiano, e o ofício das paneleiras de Goiabeiras (Espírito Santo).

O tombamento da travessia de seis faixas brancas da Abbey Road vai além. Para São Paulo, a medida chega bem no meio da discussão da manutenção ou não do famoso relógio luminoso do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, que completará meio século de existência em 2012. Desde 1976, seu letreiro carrega a marca do Banco Itaú, só que em 2007 a publicidade teve que ser apagada por causa da Lei Cidade Limpa. Recentemente, porém, o banco foi multado pela Prefeitura após a pintura de sua logomarca em azul e amarelo. Agora, a instituição apela para os órgãos do patrimônio e, se perder, vai deixar o condomínio do conjunto sem uma verba que ajuda muito sua manutenção.

Enquanto isto, no Rio, a discussão é outra. Por determinação do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a Prefeitura deverá retirar de uma praça do bairro da Glória o busto de bronze do ex-presidente Getúlio Vargas. Nada contra ele, ao contrário, a iniciativa até o protege, pois a escultura é medonha, com três metros de altura, sobre uma base de dois metros e meio. O povo a apelidou de “Cabeção”.

Para Paul McCartney, autor da idéia da foto, o tombamento da travessia é “a cereja do bolo”, pois os estúdios Abbey Road, onde os Beatles gravaram a maior parte de sua obra, já possuem a mesma certificação histórica.  Ou seja, aquele pedaço no norte de Londres se eterniza como a “Meca para os fãs mundiais dos Beatles”.  E pensar que John Lennon, apressado, queria sair logo ali: “deveríamos estar gravando o disco e não posando para fotos idiotas”.

                                                                   Júlio Moreno

(Publicado em “O Diário de Mogi” de 23/03/2011) 

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