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O patrimônio não é só histórico, é também estratégico

Vale a pena ficar de olho na revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo cujo debate recém começou.

Tenho particular esperança de que haverá maior participação popular desta vez, ao contrário da revisão de 2007, uma das causas que levou o desatualizado plano de 2002 a permanecer em vigência até hoje, do que resultaram abusos do setor imobiliário, o agravamento da mobilidade urbana e poucas ações sustentáveis.

Uma das dimensões da sustentabilidade é a cultural. A cidade não é só onde moramos, trabalhamos e estudamos. Não é só um amontoado de gente. A cidade é essencialmente um organismo social em mutação constante. Cada qual com um DNA único. Essa identidade é dada pela cultura local. Ela precisa ser forte, para não deixar que as mutações dilacerem a cidade. Para ser forte, a cultura local precisa unir, não segregar. Vale dizer, respeitar a diversidade de todas as raízes da comunidade.

A preservação dos bens culturais faz parte desse contexto. São edificações, paisagens, bens móveis e sítios arqueológicos que guardam nossa memória coletiva. Sem eles, sofreríamos de uma “labirintite urbana”, digamos assim. Não conseguiríamos nos equilibrar, andariamos pelas ruas com tonturas, com medo do inesperado. O patrimônio cultural nos acalma, nos faz sentir em casa fora de casa. Apesar dessa importância, em São Paulo os bens culturais têm sido tratados de uma forma individualizada, como fenômenos isolados do restante do tecido das cidades. Células cancerígenas que precisam ficar isoladas.

Hoje o tombamento de um prédio representa praticamente o confisco de um bem privado em benefício do interesse coletivo. O Plano Diretor em gestação na Capital pode mudar esse quadro, dando uma dimensão urbanística aos bens históricos, reconhecendo-os como parte da cidade viva, dos vasos que levam sangue para o coração da urbe bater. E assim sendo, eles teriam não apenas um papel social importante a cumprir. Também seriam economicamente atraentes para a iniciativa privada, seja o setor imobiliário, o comércio ou a área de serviços. Ou seja, os prédios tombados poderiam ter outros usos que não apenas museus ou centros culturais. Com a perda de identidade que veio da globalização, a tendência das cidades contemporâneas é de valorizar a memória e descobrir que o patrimônio é um ativo, gera valor agregado, diz a arquiteta Nadia Somekh, nova diretoria do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Capital e presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Compresp). Ou seja, os prédios tombados poderiam ter outros usos que não apenas museus ou centros culturais.

Incorporando o patrimônio histórico na estratégia de crescimento da cidade, o novo Plano Diretor paulistano poderá enfim ajudar a manter a pulsação dos locais que são afetivamente caros aos moradores de uma das maiores cidades do planeta.

Júlio Moreno

 

 

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